Talento

Estudo de aluno da Faculdade de Medicina da USP é premiado internacionalmente
Pesquisa desenvolvida em Harvard investiga relação entre estresse, cérebro e dor crônica em crianças e adolescentes
Por USP - 25/09/2026


Exames de ressonância magnética de adolescentes com dor crônica foram analisados para identificar alterações no hipocampo e sua relação com estresse e sintomas depressivos — Foto: Airman Magazine/Flickr-CC


O estudante João Pedro Costa Cruz, do 4º ano da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), recebeu o Trainee Professional Development Award (TPDA), concedido pela Society for Neuroscience (SfN), pelo estudo Hippocampal asymmetry as a structural affective correlate in pediatric chronic widespread pain. Desenvolvido durante um período de pesquisa na Harvard Medical School, o trabalho investiga a relação entre estresse, alterações cerebrais e dor crônica em crianças e adolescentes.

Costa Cruz conta que, desde o início da graduação, se interessa pela área de psiquiatria e trabalha com crianças e adolescentes. Segundo ele, a dor crônica nessa faixa etária é uma condição complexa e incapacitante. Como o número de crianças e adolescentes afetados é menor que o de adultos e idosos, há uma lacuna de estudos sobre a condição nesse grupo.

Estresse e percepção da dor

A pesquisa foi desenvolvida durante o período em que João Pedro atuou como pesquisador visitante no Fetal-Neonatal Neuroimaging and Developmental Science Center (FNNDSC), da Harvard Medical School, em colaboração com o Departamento de Anestesiologia, Cuidados Críticos e Medicina da Dor. Os participantes eram pacientes do Boston Children’s Hospital.

O pesquisador explica que fatores psicológicos e emocionais podem intensificar a percepção da dor. Para investigar essa relação, o grupo utilizou exames de ressonância magnética, com foco principalmente na estrutura do hipocampo, região do cérebro que desempenha funções relacionadas, entre outras, à regulação das emoções. O objetivo era verificar se havia alterações nessa estrutura em adolescentes com dor crônica.

Os dois hipocampos apresentaram aumento de volume, mas o crescimento foi desproporcional: o lado esquerdo aumentou mais que o direito. A assimetria esteve associada principalmente a sintomas depressivos e, segundo o pesquisador, pode representar a dimensão afetiva da dor crônica em adolescentes.

O achado sugere que o componente emocional pode desempenhar um papel importante nesses casos, para além dos aspectos físicos. “Para tratar essa criança, muitas vezes, tratar o componente psicológico talvez a faça melhorar muito mais do que tratar a dor diretamente, como se fosse qualquer outra dor. Há um componente emocional, um componente afetivo, que é muito mais importante para que essa dor aconteça do que um componente realmente físico.”

Possíveis aplicações no tratamento

Atualmente, o tratamento da dor crônica já considera a influência de fatores emocionais. Segundo João Pedro, porém, ainda é difícil determinar o peso dessa dimensão em cada paciente. A pesquisa busca contribuir para essa identificação. A análise da assimetria do hipocampo pode ajudar a compreender em quais casos a dor está mais relacionada ao componente afetivo e, assim, orientar uma parcela maior do tratamento para essa dimensão, em vez de concentrar os esforços apenas no controle da dor física.

A pesquisa integra a trajetória de João Pedro Costa Cruz, que começou ainda na graduação na Faculdade de Medicina da USP a trabalhar com psiquiatria e neuroimagem. Durante o período na Harvard Medical School, ele aplicou essa experiência ao estudo da dor crônica pediátrica. O trabalho segue em andamento, com a ampliação da amostra e a investigação de novos biomarcadores e possíveis intervenções para esses pacientes.

 

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